Terça-feira, 30 de Novembro de 2004

Corpo

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Corpo, corpo, corpo.
Alma, alma, alma.
Cresço, corro, sofro.
Paro, penso e morro.
Coração bate em palpitações rítmicas
Que não conheço,
Num som que não conheço:
Tum tum, Tum tum.
Toca, cheira, sente.
É estranho,
Assustador e claro.
Fingindo a calma, os olhos irradiam escuridão,
As mãos tremem e suam.
Sensualidade perdida
Que floresce num mundo desconhecido,
Alagado, sombrio e distante
Tal como eu…sozinha…
Galáxia? Universo? Deus?
Terra, mundo, chão, água…
Bactérias, barulho, poluição.
Escarros perdidos na calçada,
Verdes e amarelados, podres como quem os vomitou.
Sente, sente!
Olha…o corpo…corpo…corpo…
Alma, alma, alma.
O medo ganha cor
Sentimento estúpido de culpa…
Solidão…
Objectos que se mantêm quietos e serenos.
Um cigarro apagado, imundo, sujo.
Cinzas…
Álcool e droga.
Violência, violência, violência.
Mundo corrompido e podre.
Dor, dor, dor…
Regras, regras, regras.
Mente aberta, liberal, pura, limpa.
Ilusão? Utopia? Saudade? Exibicionismo?
Simplesmente uma curta e vasta confusão.
Os sentidos apurados e gastos,
Usados, reciclados não.
Deitados numa lixeira onde nada cheira,
Onde não existe liberdade, respeito, amor.
Dinheiro, dinheiro, dinheiro.
Carros, ferias, casas, construções de vida.
Ambição, ambição, ambição.
Arte? Fama? Coragem? Cobardia?
Expressão! Vontade de mudar,
Corromper o mal, instalar o bem.
Amor, amor, amor.
Conhecem a palavra, não o significado.
Canetas ansiosas e violentas,
Sedentas de escrita.
Pincéis que dançam ao som das cores,
Guitarras que se movem, disformes,
Bailarinas imóveis,
Dedos frenéticos.
Sexo? Talvez…não sentindo…deambulando…
Os corpos movem-se sozinhos,
Luzes apagadas.
Só mais uma vez, sussurrando, pensando a última…
Quem somos? Que queremos? Que fazemos?
Chamam-me…não respondo…não me apetece…
Velhice..algo tão temido…
Tempo,
Passamos por ti com criticas mordazes e atrozes…
Natureza, minha mãe que pariste e partiste…
Tribalismo…rótulos…medo…cansaço…
Críticas, dor, paz…
Hipocrisia, sorrisos velhos e falsos…
Ouro, ouro, ouro.
Faz falta a poesia, a música a pintura.
Arte…como te quero, desejo, anseio…
As forças esvaíram-se e formaram um lago
Vermelho, sangrento, vivido, sofrido,
De desejo? De mágoa?
Grito em tons de mudez.
A luz trépida alcança a parede.
Ora se acende, ora se apaga,
Criando ilusões.
Um pato deitado.
Um dragão tapado.
Um rosto escondido.
Lençóis remexidos,
Almofadas vincadas.
Som de folhas de papel amarrotadas.
Caem no chão! Que barulho!
Custa olhar, não há luz…saudade…
Um cigarro por enrolar,
Ansioso por uns lábios.
Em formas lânguidas e sensuais,
Criando umas mãos articuladas e compridas,
Um gesto teatral e imperioso,
Um pequeno orifício nos lábios,
Um amortecer de fumo entrando dentro de mim.
Que prazer!
Inspiro…expiro…
Um novo gesto, desta vez, de misericórdia, e solto-o,
Liberto o fumo que prendia em meu peito
E deixo-o voar.
Espalha-se no ar…
Intoxica e infecta…poderoso e largo…
Esfuma-se nele próprio, nada, viaja,
Ondula-se, gesticula, frio e cruel.
E a mão ergue-se de novo num ritual vampírico e fantasmagórico.



(A imagem que coloquei, um abismo de beleza, pertence a um verdadeiro artista, chamado José Marafona. www.josemarafona.com).


publicado por Rute às 16:19
link do post | favorito
De madness a 1 de Dezembro de 2004 às 19:29
tantas sensaçoes, tantos movimentos, tantas emoçoes, tanto de tudo. É sinal que Vives!


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