Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2004

Purpúra

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Chorar…
Chorar até a cólera saber o meu nome…derramar as tréguas, ver-me livre delas…enfatizar aquilo que sou e desejar ser mais…tudo isto por nada…tudo isto por um trago de um doce azedume que foi aquilo que é…cantar a morte...implorar o tédio…viver sobre ele e cair…sentir o cabelo a voar…os braços longos estendidos…os dedos soltos…as pernas gentilmente pedindo suavidade, e o corpo não estendido mas enrolado! Enrolado como nunca! A dançar! Movimentos loucos tão fortes quanto bruscos, tão bruscos como angelicais. Um sorriso e pedir a Deus que me leve. Ouço murmúrios?? Quem são? Quem está aí?
Em breve descubro.
Gritam! Gritam! Assusto-me! Tremo de medo, transpiro, sinto-me ofegante, quero sair daqui!!! Sim, a cobardia invadiu-me, e porque não? Temos todos de ser heróis? Não me interessa ser cobarde mais uma vez…quero pousar os pés no chão e correr até as finas pernas não aguentarem mais…Não consigo!!! Porquê??? Sinto-me a correr no vazio. Tropeço, caio, levanto-me corro.
Não sei como, agora não sinto a aflição que sentia. Algo me leva a olhar para cima…e, por espanto meu, na minha trémula inocência, vejo no céu, alguém a correr como um pássaro voa…é estranho…um longo vestido branco, rasgado de beleza, que cheira a seda e transborda de cortes, acompanha-a. Acho que tem uma mancha de sangue. Vejo-a agora a sentar-se no vazio. Apoiada num braço e com o outro rasgando ainda mais o vestido, no peito. As pernas roçam-se uma na outra e deita-se suavemente…reparo no peito a respirar cada vez mais rápido, mais rápido, mais rápido, já nem sei para onde olhar! Um turbilhão de sensações, uma mão entre as pernas, um lamber de lábios, vento, vento, vento, vento, muito vento, e de repente, uma voz ensurdecedora, que não grita mas berra, tão grave quanto aguda, tão bela quanto horripilante “LEVA-ME DE VEZ”. Completamente desfigurada.
O vento pára, o corpo ergue-se, suspenso como sempre esteve, e uma cara que em nada parece a de à poucos instantes, inocente mas sem esperança, branca e negra de dor. Os braços elevam-se e uma pequena dança em tons de rodopio é concretizada. O bailado do degradante é realizado, o vestido quase já não existe e o corpo cai. Cai no chão na forma mais bela que já vi. Aprecio o momento.
Aproximo-me.
Os longos cabelos estão inertes ao longo do corpo, um braço junto ao peito e o outro junto à cabeça. As pernas…as pernas…essas estão numa melodia que indicia a virgindade da meretriz. Os seios livres, colados ao vestido, e agora sim, vejo a sua assustadora beleza mais pormenorizadamente. Ajoelho-me, sentando-me em cima dos pés. Toco-lhe nos lábios, pintados de vermelho, desço pelo peito, pelo ventre, pelas pernas…não resisto…beijo-a…toco-lhe na mão…como está fria!
Acho que finalmente, lhe foi satisfeito o desejo que gritava…ele levou-a de vez…que ciúme…estendo-lhe o braço na minha direcção…e uma necessidade repentina de protecção leva-me a deitar a cabeça sobre ele e a aconchegar-me a ela…uma estranha força puxa-me, arrebata-me as entranhas, revolta-me a alma, suga-me a vida! Estou de novo assustada, não compreendo que se passa!!!! Levanto-me, não aguento mais…o corpo pesa tanto! Procuro o corpo dela, onde está??? Não o vejo, não o encontro, corro para um lado e para o outro, ando à roda….quando sem esperança, olho por mim abaixo..o vestido…a mancha de sangue…passo as mãos pelos lábios….vermelho...sinto os longos cabelos escuros e um pouco molhados nas costas…acho que…que…estou nela!!!!
Olho de novo à minha volta…um oceano calmo chama por mim…tenho os pés sujos, cansados…e caminho lentamente..tudo escurece…não consigo parar de caminhar…o erguer de braços de novo…a cobardia abandonou-me…sem medo, dirijo-me para o mar…a água está gelada, mas não me impede de cumprir este cadáver adiado…sinto-a em mim…fria…sinto-me envolvida nela…dormente…ouço o bater rítmico do coração…fecho os olhos…e viajo…viajo como nunca viajei…há cânticos que ecoam os meus movimentos e sinto-me finalmente bela…a magia veio…sou nada…e sinto-me livre…finalmente o tudo que sempre desejei…


(Mais uma bela imagem de José Marafona. www.josemarafona.com)

publicado por Rute às 16:32
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1 comentário:
De Smen. a 2 de Dezembro de 2004 às 14:48
A vida face à morbidez à quietude do corpo, da permanência da visão de paredes que nos cercam incutem-nos a religião de um suicídio omnipotente, de uma realidade distorcida pelo sugar do dia e pelo sufrágio da morte. Somos residentes e imperatrizes de nós, não serventes da vida. Não queremos nem tentamos aceitar a morte total como certa. Somos apenas um conjunto de átomos essenciais á ciclalização.


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