Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2006

Cartas

SaschaHuettennhain.JPG







De uma maneira que podia mas em nada faz lembrar os bons costumes, enviaste-me uma carta em branco assinada a desprezo. Não tinha remetente, de nada me valia responder-te em branco de igual modo e assinar a compasso, porque não irias sequer recebê-la.
É doloroso ter páginas e páginas sem fim sem nada para ler…mergulha-se num estado hipnótico neste branco de espuma do mar, que parece de raiva.
Então deixo-me levar pela tentação de um lápis acabado de afiar e escrevo tudo aquilo que queria ler. Escrevo até a exaustão da realidade quando me apercebo que por mais que escreva, está na mesma tudo em branco…carrego com mais força, até partir o espinho frágil de carvão…
Escreve-se na solidão memórias de momentos de companhia, de nada me serve tudo isto…a memória foi curta. Culpa da mente infantil que teima em criar e fantasiar, e breves instantes tornam-se então repletos, eufóricos, quase parecem não caber no seu próprio tempo…
E não cabem…e não passam de contos que gostávamos que fossem mas não são.

Revoltam-se as entranhas e encontra-se a última réstia de coragem ou falta de bom senso…a surpresa acontece quando provavelmente já não devia, permitindo que se instale uma confusão tremenda em cada poro do corpo…logo agora que as promessas já estão feitas… (mas não estavam prontas a serem cumpridas).

Assusto-me com a facilidade com que tudo se quebra…somos uma fina camada de gelo que pica passo a passo outra camada de gelo ainda mais ténue. Resta-nos esperar que mais uma vez o tempo cure tudo, e dessa forma volte o Inverno para podermos gelar e recomeçar, cada vez mais frios e mais finos.
Sou eu a bailarina pendurada do céu por fio de coco como uma marioneta, que dança articulada como quem voa numa pista sem princípio nem fim…danço explorando todos os ângulos, todos os movimentos, todos os sentidos, com e sem frenesim, suave ou obtusa.
Tento num esforço interminável que todo o meu calor sirva para derreter este gelo…mas não está ao meu alcance. Por vezes caio redonda no chão, desajeitada, mas levanto-me quase sempre…o embaraço já ficou algures perdido no tempo e a face nunca ficou rosada.

Podia debater com ódio esta sentença gelada de ter de dançar sozinha neste lugar de fantasia, mas não. Aprendi a gostar deste espaço…é branco, é frio, não se adivinha o seu início nem o seu fim, é largo, extenso, é intemporal…é só meu.






(Imagem de Sascha Huettennhain)

publicado por Rute às 16:49
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39 comentários:
De marta a 8 de Fevereiro de 2006 às 10:18
Quero esconder a dor, o meu destino
Na moldura mais negra desta vida...
Ó luz da aurora! Meu anjo divino!
Desfaz-me do meu peito a dor sentida


Minhas faces! O olhar mais cristalino,
Perante a primavera renascida...
O Sol dentro de mim é como um hino,
Renovação da luz, que foi erguida.


Vivo dentro do grande "tabernáculo"
As luzes da ribalta, um 'spetáculo
Luzeiro divinal! Fogo das Almas"


Do meu castelo, minhas açoteias Palco de maravilhas, as platéias...
Dum Mundo que sem Luz, nos bate palmas!

Beijo e boa semana!!


De Lus a 8 de Fevereiro de 2006 às 01:16
Perfeito


De NMC a 7 de Fevereiro de 2006 às 23:23
:)


De digoeu a 7 de Fevereiro de 2006 às 21:14
Li o teu belíssimo texto e pensei bastar-nos ir com o tempo e a água como se nos buscasse o Verão, na outra margem. Escreves, realmente, muito bem.


De filipe a 7 de Fevereiro de 2006 às 17:23
Imagem excelente a acompanhar o post! O artigo é da tua autoria? Se é, estás de parabéns, porque escreves uma prosa... poética! Ainda bem que existem pessoas como tu, agradeço o teu peq. comentário no meu blog! Força! Um dia publicarás um livro!


De Carla a 6 de Fevereiro de 2006 às 01:33
Vampiria querida, está cada vez mais soberba a tua escrita... custa-me retirar tanto prazer do que retiras de ti como um ferro em brasa. É estranho que é quando mais nos dói que mais toca aos outros, como se a dor, a tristeza ou a mágoa no seu estado puro também possam ser belos... Fizeste muita falta por aqui. Não vou dizer-te uma frase que mais me tenha tocado, era impossível. São todas tão tuas e ao mesmo tempo tão nossas... Um beijo muito grande.


De mulherde30 a 5 de Fevereiro de 2006 às 23:25
depois de tanto tempo....continuo a gostar de te ler. Com a profundidade de sempre, a roçar na alma.


De Neith a 4 de Fevereiro de 2006 às 17:13
Palavras que lapidas deixando apurar a essência dum sentir profundo...a imagem é magnifica e combina na perfeição. Beijinhos :))


De ferrus a 4 de Fevereiro de 2006 às 11:56
Deixo-te um beijo em forma de amizade. Deixo-te um carinho com sabor a mar. Deixo-te um sorriso com aroma a flores...Também não me esqueci de ti, Doce Vampíria e já te tinha saudades...Que este dia seja o teu: em sorrisos e paz. Parabéns por mais uma primavera e que o branco da paz te inunda o coração...sempre!!!! Beijos nossos para ti, Vampíria :-)


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