Domingo, 20 de Fevereiro de 2005

Momentos de Amarras

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E cá estou eu de novo. Morta. Isolada de tudo. Já não sei nada. Estou completamente perdida…tantas tentativas frustradas…aquilo que mais amo não parece estar ao meu alcance…melodia, porque não voas para junto de mim? Sons rítmicos ecoam. Enforcamento. Solução. O tempo escasseia e não consigo evitar nada disto. Que raio de realidade é esta? Mais me parece um filme de ficção. De novo os sons rítmicos, tambores. Já estou enterrada de novo. Como posso fugir de tudo isto? Parece que me persegue e não descola.
O que o meu corpo pede é rasgar as paredes com as unhas enquanto choro e berro. Besta que nasceste em mim. Preciso de sangue para viver. De que merda de contradições sou eu feita? Amizades desfeitas, amores corrompidos, vontades insatisfeitas, vivo a vida da forma que não aceito. (não me posso esquecer de respirar). Tudo o que quero está em contradição com o que faço.
Discussões, pessoas aos berros, loucas, bêbedas de ignorância, desgrenhadas, usadas da virgem de vida, importância supérflua de coisas…correm ao longo do metro…já tenho os joelhos a sangrar de tanto não as acompanhar. Parei, estagnei a meio da avenida e tudo à minha volta continua a girar. Faz-se um clic, e sou derrubada. Estou suja, sempre suja. Os joelhos, os cotovelos, o queixo, esfolados como os de uma criança. Só quero poder chorar para sempre.
Não irei ter um final feliz como se espera…não fui talhada para a vida comum, não consigo. Não consigo viver na abstinência do porquê de tudo, da razão que não encontro, do ódio por todos e por mim. Sinto-me a marchar ao longo da vida. Mas o que mais quero, é correr e rir ás gargalhadas enquanto os outros marcham, isso sim, me poderia fazer sorrir durante alguns instantes…
E o tempo continua a correr a meu lado.
Mas o tempo continua a fugir-me entre os dedos. Parece areia de uma praia limpa, maravilhosa de segredo, única de virgindade do Homem, a escorrer entre os dedos de uma qualquer velha alcoólica que a apanha com as frágeis e envelhecidas mãos…essa velha parece ter o meu rosto, desvanecido, marcada mais uma vez pelo omnipotente tempo.
Maldito sejas.
Afogas-me em ti.
Não me apetece ir estudar as inutilidades que me querem ensinar. Não me apetece estar aqui. Não me apetece ir para lado nenhum.
Apetecia-me que a melodia me fluísse dos dedos como o sangue me fluí nas veias. Isso sim.
Um dia pode ser que também envelheças tempo cruel que foges.




(Imagem de José Marafona www.josemarafona.com)

publicado por Rute às 20:14
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32 comentários:
De Viceversa1000 a 7 de Março de 2005 às 20:48
Somos os autores da nossa felicidade ou da nossa infelicidade. Gostamos de nos queixar, mas não temos razão. Podemos adaptar-nos àquilo que nos sucede. Podemos aguentar. Podemos esperar. Mas quando actuamos mal, quando as nossas escolhas são contrárias à nossa natureza humana, chega-se a um ponto em que viver é insuportavelmente doloroso..
A dor pode vir-nos do exterior. A felicidade, contudo, está relacionada apenas com o nosso comportamento, com as nossas escolhas, e nada exterior no-la pode roubar. É compatível com o sofrimento. Beijinhos


De mulherde30 a 2 de Março de 2005 às 15:14
não estará já na hora de deixares essas amarras que te prendem e olhares para a vida com sorriso? Vá, levanta-te...chega a ser angustiante saber-te assim...quero vir aqui e encontrar escrito coisas belas...não mágoas.


De rosa_p a 28 de Fevereiro de 2005 às 14:53
Já passou? Espero que sim. Os momentos que descreves são de uma total impotência, impedindo-nos mesmo de pensar com clareza. Mas como tu és capaz de o fazer, toca a levantar, sacudir os cabelos, ajustar a saia e sorrir :)


De rosa_p a 28 de Fevereiro de 2005 às 14:53
Já passou? Espero que sim. Os momentos que descreves são de uma total impotência, impedindo-nos mesmo de pensar com clareza. Mas como tu és capaz de o fazer, toca a levantar, sacudir os cabelos, ajustar a saia e sorrir :)


De SuicideCinderela a 28 de Fevereiro de 2005 às 07:46
Vampiria, provavelm. ja n t lembras de mim...mas continuo a visitar-te sempre q posso..por vezes n comento por falta d tempo ou por simples respeito para com a beleza da tua escrita.mais uma vez, fiquei presa, desorientada, fascinada.obrigada por cd momento d boa leitura:)*beijo


De id a 25 de Fevereiro de 2005 às 18:22
olá, é a primeira vez que passo por cá e já percebi que tenho que cá voltar para te ler com a devida atenção. se puderes passa pelo meu. bj


De Joana a 25 de Fevereiro de 2005 às 16:42
Sempre muito fortes os teus textos. Beijinhos.


De Joana a 25 de Fevereiro de 2005 às 16:41
Sempre muito fortes os teus textos. Beijinhos.


De Joana a 25 de Fevereiro de 2005 às 16:40
Sempre muito fortes os teus textos. Beijinhos.


De Shutdown a 25 de Fevereiro de 2005 às 12:07
Queres voar, tens asas, tens lugar. Vives na ilusão de um sonho ou ainda de uma possibilidade. Suicidio não é morte, é viver com a ambição remotamente esfaqueada pelo medo e pela apatia. Vencê-lo é contornando-o aproveitando de cada segundo o nosso limite, não sendo para isso necessária a realização de uma profissão, de um totoloto, de um som, de um livro, de qualquer coisa que nos saiba a sonho. Há que valorizar o ser e a vida, só eles nos dão a possibilidade da possibilidade (ainda que remota) de um sonho. É simples, para quê complicar? Ninguém é moldado para a vida a menos que seja produzido e actue em todos os minutos como máquina desligando a hipofise (Mechanical Animals). Queres? Nós devemos moldar a vida à nossa imagem, e não ser um mero resultado de barro para a vida. Acorda. Dás demasiada importância a estados de delirio, a demasiadas poesias. Vá, anda.


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