Domingo, 9 de Abril de 2006

Tempo

ABrito.JPG


 


            (Dei mais uma passa no cigarro. Esperei por ela. Entrou deslumbrante e arrasou-me mais uma vez…tal como sempre…devastou-me com aquele sorriso encantador que me deixa atordoada.


            Fiquei com as mãos a tremer. O coração batia tanto que quase me rasgava a pele, abrindo-me o peito para o mundo, exorcizando tudo o que me atormentava.


            Comprimi os músculos…não queria permitir que os lábios se abrissem, que os olhos me lavassem a face e levassem a dor. O segredo corroía-me por inteiro, mas tinha de me lembrar por que o era afinal.)


 


 


            Que reconfortante tomar as rédeas do tempo novamente. Usar as horas para o que se quer…queimá-las, simplesmente olhar o relógio no bater incessante dos segundos. Sempre me fascinou este rodopio que dita a nossa rotina e o nosso próprio tempo. Cada tic e cada tac, omnipotentes no seu tilintar pequenino, corroendo as nossas células cada vez mais velhas e tristes.


            Tic, tac, tic, tac…canta-me o relógio, e eu imóvel a ver os ponteiros voar.


           


            Que ousadia seria tentar correr mais depressa do que este instrumento lapidante de ar inocente.


 


            Posso simplesmente tentar irritá-lo com risos ou movimentos, direcções, idas e voltas, melodias, lugares…mas duvido que adiante alguma coisa…ele não pára nunca. Parece que o regedor do envelhecimento guardou para si mesmo o segredo de não envelhecer.


            Que apodreça jovem então.


            Não quero saber.


           


            Acordei sonolenta, bem cedo, quando tinha planeado dormir. A confusão batia bem forte com os pés no chão, não me deixando repousar…tudo se repetia como se de um eco se tratasse…


Talvez devesse ficar alegre…afinal tive o recibo das contas que fiz, mal ou bem. Já está tudo claro. Mas eu não queria assim…maldito que andas a par com relógio. Só me atormentas.


            Apetece-me um dia negro, que anuncie chuva. Tinha de estar um dia solarengo de Primavera para me contrariar o desejo.


 


            Então decido viajar à minha maneira, como é hábito.


            Mesmo sem fechar os olhos já consigo sentir a areia fria a acomodar-se ao meu corpo, cuidadoso, que se deitou no abismo anunciado de forma a que só os pés se fossem molhando conforme a ondulação…


            Sinto-me gelada.


E estou.


A minha pele está ainda mais branca…espreito por mim para ver se ainda me consigo mover ou se já me abandonei.


            Se me encontrassem aqui talvez me dissessem morta…ou somente louca.


 


            Desabafos pincelados de ironia…escrever para não dizer…escrever o que não se consegue dizer…na pele…no papel…na areia…ou no vento…seja onde for, os gritos não se fazem ouvir e já está tudo cansado de não entender.


            Recolhemos assim ao nosso pequeno casulo…enrolamo-nos e conformamo-nos de não ter encontrado resposta…a busca apenas no serviu para apertar o nó da falta de esperança e o espremer de mais umas horas.


 


Agora deve estar o relógio a rir descontroladamente do meu embaraço com o tempo que me deu…usei-o com tudo o que não era necessário e está quase esgotado.


 


Pois que esteja…é da maneira que não tenho mais de me submeter aos pequenos, miseráveis, caprichosos rasgos de tempo que nos oferece, como se nos desse muito.


 


 


(Imagem de André Brito)


publicado por Rute às 03:58
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17 comentários:
De Carla a 17 de Abril de 2006 às 00:41
Tinha imensas saudades de te ler, Vampíria querida. Espero que agarres bem nas rédeas do tempo e continues a usar as palavras como só tu sabes fazer. Um beijo enorme.


De Marya a 14 de Abril de 2006 às 10:40
O tempo... Tanto que há para dizer sobre ele e muito mais para sentir. Umas vezes amigo , outras inimigo! Dizem que o tempo passa...o que é mentira! O tempo fica preso, congelado no espaço, nós é que passamos por ele! E ao passar pelo seus segundos, é que temos de o aproveitar da melhor maneira possivel... Escreves muito bem...Gostei de te ler...Beijo


De Carlos a 14 de Abril de 2006 às 09:58
Cerejas

Bebo
o licor
na tua boca
Bebes
o licor
no meu umbigo


Mais que fantasia...
passamos horas
nessa brincadeira louca
Delírios do prazer
de estar contigo


Trilhas

de cerejas

em nossos corpos

Alimentos
degustados
pouco a pouco
Sinto
tua sede
e me alucino...


Somos cálice
iguarias
somos loucos
Bêbados
de paixão
e Maraschino




De Susana a 13 de Abril de 2006 às 22:43
O tempo, esse que nos prende.. Adorei o teu texto, como sempre.. Beijinho, grande..


De delta a 13 de Abril de 2006 às 00:06
Não peças chuva...pleaseeeeee.... Eu gosto tanto de estar deitadinha ao sol...Hummmm....é uma delícia...:-)


De http://manefta.blogs.sapo.pt a 12 de Abril de 2006 às 22:50
Penso muitas vezes no tempo, umas vezes tão veloz outras passa tão devagar que se assemelha a tortura.
Costumam -me dizer que tenho uma má relação com o relógio, ando sempre em cima da hora, isto porque tenho a mania que vou para nova e decido fazer milhentas coisas no mesmo dia, o corpo já começa a gritar comigo que assim não pode ser, e quando me deixo cair no sossego sou eu que grito comigo mesma, pois podia estar a fazer muita coisa, uma vida não chega. Por vezes entro nestas torturas interiores de decidir ou não se páro, se caminho, e fico cansada. Mas como adoro estar viva e aprender, vejo que o tempo me está a mudar e a dar-me a calma que sempre idealizei ter, e os momentos mortos que roubo ao relógio tornam-se produtivos, agradavéis. E então tudo se resume a estar viva, tudo se resume a novos ficheiros que vou adquirindo, e se é assim não faz mal, pois no tempo que ele me rouba eu aprendo a não me preocupar. Enfim...mais uma vez adorei o texto. beijos


De http://shakermaker.blogs.sapo.pt a 10 de Abril de 2006 às 01:41
Ora viva Cara Vampiria... Sabe, faz algum tempo que não tinha o prazer de a ler. Se bem que em todo esse tempo não deixei de a visitar mesmo sem ter o que ler, embora tivesse tempo para o fazer. Será escusado dar demasiado importância ao tempo que demora a publicar, até porque valeu a pena esperar todo este tempo. Este seu texto em bom tempo chegou, e não perdeu porque tardou, ou tudo não tivesse o seu tempo. Este tempo é brilhante, um texto muito bem escrito, e posso arriscar em dizê-lo que julgo ter conseguido entendê-lo. Gostei da forma como arrumou os parágrafos, da maneira como as palavras ocupam as frases e do tempo de entrada das dúvidas que a seu tempo serão esclarecidas. Cara Vampiria, os seus textos são um regalo para os olhos e um autêntico despertador dos sentidos... Tic-tac, tal e qual. Triiim, julgo que percebi. Agradeço a sua visita ao HTW onde a recebo com agrado, não só por ser um prazer que me visite, mas também porque é um sinal de que porventura publicou um novo texto. Assim foi, e não perdi tempo em o ler e, atempadamente, o comentei. Até breve, digo eu, mediante o seu tempo. Um abraço... SHAKERMAKER


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