Sexta-feira, 24 de Junho de 2005

Ao outro dia

ElizabethZedzian1.jpg Refugio-me na penumbra de uns estores fechados a esconder um dia cheio de sol. Dou passadas largas numa confusão familiar e apetece-me que seja só isto por momentos. O escuro, a melodia, e eu. Um sitio quente. Preciso de algo mais pequeno e escondo-me debaixo da secretária. Isto é tudo quanto quero sentir. Cravo as unhas nos braços e soluço baixinho…já sinto o sabor amargo do que sou. Pecados inventados pela minha infantilidade, que sorriu para o que não devia…da maneira que não devia…para agora saber o que não devia. Rasgo os tecidos enquanto se preparam para a festa. Nem se lembram de mim aposto. Ficou-me o cheiro da brisa que pensava ter…a amargura pesa agora e a desilusão que pensava já não poder encontrar nesta idade. Caminhei vagarosamente para tudo isto…a culpa é minha, nem sei porque me queixo. Alguém com leviandade atou uma corda ao meu peito e puxa-me violentamente contra o chão. Estou massacrada, dorida, e não consigo desfazer o nó. Neste momento, vejo o oceano como nunca o tinha conseguido ver…apetece-me fazer parte dele e como por magia, fecho os olhos cansados e consigo. Sei que não há-de vir, sei que não me conseguirei fazer ouvir. Tumultuoso acordar este do dia a seguir. O levantar é penoso e custa acreditar que é mesmo isto. Sem máscaras, sem disfarce, sem mais com que sonhar. Lembro-me de mim, feliz a entender tudo como me fazia bem…ou entendi mal de novo? Que raio!!! Porquê esta incerteza…? Pensei que já tinha secado a mais fácil forma de falar…mas não…ainda caem lágrimas. Verdadeira, não me levanto…o luto tem de ser feito e eu fá-lo-ei. Enterrada em cigarros, cinzas, álcool. Os que me deram a natureza sempre sussurraram, e não erravam, que esta era a minha maneira de estar triste e desabafar…não se enganaram, nunca. São a minha melhor companhia, com um sorriso e os braços sempre abertos, para eu não falar como sempre, e poder não chorar à vontade. Os meus olhos brilham para o chão...custa erguê-los…o inchaço provocaria perguntas a que não posso responder. Vão chegar pessoas. Vou ter de me vestir e inventar um sorriso. Afinal está tudo bem e isto não passou de um sonho mau…pode ser que a mão que desenha este sorriso encontre a inspiração num verdadeiro que já esteve esboçado mas foi apagado, ontem. À noite. Uma tela para não esquecer como pode parecer que D. Sebastião vem lá, e não passa de uma neblina mais densa. 


publicado por Rute às 18:11
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De Laura Rouge a 2 de Julho de 2005 às 14:43
Olá minha querida Vampiria. Há muito que não nos encontrávamos por aqui. Culpa minha, claro. Já perdi muitos amigos por ser assim... ou por nunca ter sido amiga deles. De certa forma, sou um pouco como o seu D. Sebastião. Por vezes as pessoas precisavam da minha presença, imponente, como sabe, e esperavam por ela, todo o dia e toda a noite, sem que nunca eu aparecesse. O mundo é pequeno... e há sensações que se transpõem e trespassam de umas pessoas para as outras sem que nunca percebamos porquê. Talvez sintamos as mesmas coisas ao sofrer com épisódios idênticos da nossa vida. Um beijo, Laura Rouge.


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