Terça-feira, 2 de Agosto de 2005

Nós

ditales.JPG









Estico os dedos. Preparo sem frenesim o que se aproxima.
Faço-me de contorcionista e desdobro a minha vida, cravada num papel amarrotado enfiado com desprezo no fundo de uma gaveta.
Cheira a pó.
Descubro algumas das peles que já usei atrás de um armário de sensações…sem as ter de vestir ainda as sei usar. Quase me assusto com a velocidade a que as memórias me acorrem, parecem pedaços de fotografias todos misturados, que organizo calmamente, onde estou sempre eu. E disso não posso fugir: o passado escorre-nos nas veias…não se pode simplesmente cortar os pulsos e esperar que se apague, porque esquecemos…também não se pode fingir que não aconteceu, porque não passava de mais uma pele, que mais cedo ou mais tarde iria ser despida, tornar a ser vestida e por aí adiante.
Conformo-me com esta pessoa que criei porque não estou com paciência para lutas e promessas de mudanças que nunca se cumprem. Talvez mais tarde…não interessa.
Não tenho nada para contar…estou apenas sossegada a sentir.




Inundo-me em imagens, pequenas réplicas ousadas do pouco tempo que sobrou.
Volto a cima para respirar e apercebo-me do dia, das horas. Não sei se estará a celebração a reinar ou apenas te encolhes nos lençóis…sozinho…amargurado com a vida e a idade que te persegue. O desdém de ontem fez-me um peso no estômago…
Voltaste. Parece que nem os lençóis te esperaram nem a celebração…vens, não sei se por rotina se por vontade de conversar…mas vens.
Sabias que semeaste em mim um romantismo que desconhecia? Fria para com os sentimentos nestas coisas das relações, descobri que o amor pode ser doce sem ser foleiro…com que mágoa eu o sinto agora.
Bato com os pés no chão conforme os minutos passam, tal e qual uma criança numa birra estridente. Fantasio e quero-te. Não entendes?? Detesto que me faças esperar…(entretanto uma vozinha grita de alegria quando a barreira se quebra e tudo se alivia por afinal estares aqui…).
E é assim que detesto tudo isto…é assim que detesto sentir. Que odeio as esperas e os reconfortos que por vezes trazem.

É assim que me vem a loucura de não sentir nada para além do latejar do corpo dela e do meu. Umas pernas suaves, enroladas à minha cintura marcada, já habituada ao contorno do seu corpo...vibro com a sua língua a percorrer-me do interior das coxas ao pescoço.
Mulheres, sem serem precisos mais enfeites ou acessórios. Ornamentadas apenas com o aroma mais natural…o do desejo. Sem pressas desnecessárias, porque temos todo o tempo que quisermos para descobrir mais uma vez os prazeres que conhecemos tão bem…Encontrámos a proporção certa uma na outra. Vimos isso mal nos olhámos a primeira vez. Uma forma de paixão que não precisa de demasiado tempo…apenas o necessário para saber que se mantém acesa.
Neste momento, “quero-te em câmara ardente” mais do que nunca. Apetece-me o teu calor como no primeiro dia. Os teus lábios loucos, molhados nos meus e pelo meu corpo…como se conseguisses exorcizar toda a tristeza de dentro do meu peito por alguns momentos. Perco-me nos teus olhos que carregam a maquilhagem perfeita, e na tua pele prestes a ser marcada pelas minhas unhas.
Deve ser por isto que é tão bom estar contigo…somos duas mesmo quando somos uma só…







(Imagem de www.dita.net)

publicado por Rute às 02:01
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25 comentários:
De mocho a 8 de Agosto de 2005 às 16:50
Muito bonito o teu texto; fala de amor e sensibilidade; está-se sp de parabens quando estas 2 emoções se elevam. Fica bem.


De Margarida a 7 de Agosto de 2005 às 03:53
Olá! Vim agradecer-te o teu comentario e a tua visita ao sabor do vento e confesso q gostei de te ler! os teus posts são muito interessantes e cheios de sensibilidade! beijinhos grandes Ahhh eu tenho um outro blog e gostava de te ver por lá http://momentosadois.blogs.sapo.pt


De Plantacarnivora a 5 de Agosto de 2005 às 20:01
Para quem diz não ter muito para dizer...e deixar-se ir ao sabor do vento (mais ou menos estas palavras)...fizeste um post magnífico, que li com entusiasmo e satisfação. Parabens. Está deveras deslumbrante. Bom fds beijócas


De Carla a 5 de Agosto de 2005 às 06:33
E é assim que deve ser, não é? Unas... :) Tinha tantas saudades da tua escrita, Vampíria! Um beijo enorme que o gosto da espera seja sempre doce na hora do reencontro :)


De Dora a 4 de Agosto de 2005 às 11:40
Lindo, este introspectivo, em três "andamentos" distintos, mas que se entrelaçam na perfeição.


De Susana a 3 de Agosto de 2005 às 21:04
"deve ser por isto que é tão bom estar contigo…somos duas mesmo quando somos uma só…", uma das mais belas expressões de amor, a beleza do teu texto envolveu-me como todos os outros, correndo o risco de ser repetitiva, magnífico regresso.. ;) Beijinho, grande..


De Snia a 3 de Agosto de 2005 às 13:48
excelente conjunto de letras e fotografia
que saudades tuas :)
beijinho


De Perfect Woman a 3 de Agosto de 2005 às 00:57
Mas porque é que quando eu venho aqui, fico sempre deliciada, com as tuas palavras... Pena nao conseguir vir mais vezes... Beijos nininha, Parabéns "again"...


De andreia a 2 de Agosto de 2005 às 22:54
Todos nós temos muitas partes em nós mesmos. Podem confortar-nos ou exasperar-nos, mas somos sempre nós.
A espera pode ser reconfortante quando dá aqueles segundos de regresso que tão bem sabem, mas trazem coisas menos boas que sabes bem :)


De Orfeu a 2 de Agosto de 2005 às 21:12
Que bom o teu regresso, que saudades de ler as tuas palavras. Quanto ao texto, uma vez mais, sem fôlego, a imaginação deixa-nos sem reacção, apenas imagens, a visualização do descrito...Brilhante, complicado para um homem comentar, mas simplesmente brilhante. Um beijo


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