Domingo, 20 de Fevereiro de 2005

Momentos de Amarras

01199.JPG




E cá estou eu de novo. Morta. Isolada de tudo. Já não sei nada. Estou completamente perdida…tantas tentativas frustradas…aquilo que mais amo não parece estar ao meu alcance…melodia, porque não voas para junto de mim? Sons rítmicos ecoam. Enforcamento. Solução. O tempo escasseia e não consigo evitar nada disto. Que raio de realidade é esta? Mais me parece um filme de ficção. De novo os sons rítmicos, tambores. Já estou enterrada de novo. Como posso fugir de tudo isto? Parece que me persegue e não descola.
O que o meu corpo pede é rasgar as paredes com as unhas enquanto choro e berro. Besta que nasceste em mim. Preciso de sangue para viver. De que merda de contradições sou eu feita? Amizades desfeitas, amores corrompidos, vontades insatisfeitas, vivo a vida da forma que não aceito. (não me posso esquecer de respirar). Tudo o que quero está em contradição com o que faço.
Discussões, pessoas aos berros, loucas, bêbedas de ignorância, desgrenhadas, usadas da virgem de vida, importância supérflua de coisas…correm ao longo do metro…já tenho os joelhos a sangrar de tanto não as acompanhar. Parei, estagnei a meio da avenida e tudo à minha volta continua a girar. Faz-se um clic, e sou derrubada. Estou suja, sempre suja. Os joelhos, os cotovelos, o queixo, esfolados como os de uma criança. Só quero poder chorar para sempre.
Não irei ter um final feliz como se espera…não fui talhada para a vida comum, não consigo. Não consigo viver na abstinência do porquê de tudo, da razão que não encontro, do ódio por todos e por mim. Sinto-me a marchar ao longo da vida. Mas o que mais quero, é correr e rir ás gargalhadas enquanto os outros marcham, isso sim, me poderia fazer sorrir durante alguns instantes…
E o tempo continua a correr a meu lado.
Mas o tempo continua a fugir-me entre os dedos. Parece areia de uma praia limpa, maravilhosa de segredo, única de virgindade do Homem, a escorrer entre os dedos de uma qualquer velha alcoólica que a apanha com as frágeis e envelhecidas mãos…essa velha parece ter o meu rosto, desvanecido, marcada mais uma vez pelo omnipotente tempo.
Maldito sejas.
Afogas-me em ti.
Não me apetece ir estudar as inutilidades que me querem ensinar. Não me apetece estar aqui. Não me apetece ir para lado nenhum.
Apetecia-me que a melodia me fluísse dos dedos como o sangue me fluí nas veias. Isso sim.
Um dia pode ser que também envelheças tempo cruel que foges.




(Imagem de José Marafona www.josemarafona.com)

publicado por Rute às 20:14
link do post | Your Thoughts | ver comentários (32) | favorito
Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2005

Brisa

01122.JPG





Estou de rastos. As árvores batem palmas fortemente em meu redor. Saltitam e dançam como se fosse uma festa. Os músicos são os trovões e a cada batida sinto um murro grande no estômago. (Parece que bem me enganei com tudo isto…).
A terra é espezinhada a cada melodia. Já não há practicamente nada…apenas alguns pedaços de erva no meio da lama que já se começou a formar.
Está tudo a girar tão depressa…as aves anunciam o que já se previa.
As árvores esganiçam-se em vozes ensurdecedoras…magoam-me tanto os ouvidos…que estão elas a gritar? O que é? O que é? O QUE É? Não percebo…não sei se quero perceber…Tapo os ouvidos com mãos, enrosco-me em mim própria, tento rastejar dali para fora. Mas elas perseguem-me.
Estou assustada. Estou muito assustada.
Sinto uma brisa vinda de qualquer parte. Consigo tocá-la. Estendo-lhe os braços, mexo a ponta dos dedos dentro dela tentando que se envolva em mim. Está fresca. Tem um aroma que me vicia de imediato.
(Espero que me envolva todo o corpo…que me faça enforcar o medo e me desenhe um novo sorriso).
Brisa…como é bom sentir algo fresco finalmente. Como é bom ter-te aqui dentro de mim, à minha volta, em tudo o que é meu. Estou a sangrar dos joelhos…estão esfolados…desculpa.
Vais deixar-me repousar de mim? Faz-me levitar.
Faz isso. Faz-me levitar.
Deixa-me leve para que possa correr sem nunca ter de parar. Deixa-me correr pela mata dentro, sem magoar demasiado os pés. A desbravar caminhos, a sentir o cheiro da alfazema, sentir o peito ofegante, e de repente, dar um salto enorme, e poder correr sobre o mar.
Sim! É isso! Quero correr sobre o mar! Sentir as pernas molhadas e abraçar a linha do horizonte, a linha da ilusão. Poder tê-la nos olhos e saltar de novo!
Sim! Quero saltar de novo! Quero saltar para o rio. Quero caminhar no rio com a água doce pela cintura e sentir os seixos macios, lisos enquanto caminho. Deliciar-me com o verde dos pinheiros e mergulhar nas águas calmas. Abrir os olhos e ver…e não ter de vir à superfície respirar.

Brisa…quem és?
Alguém que caminha delicadamente sobre as folhas outonais.
Vestes-te de negro e tens os lábios doces.
Não te posso ingerir mais…
Permites que te tome?
Ouve…com atenção…ouve…
Ouve o sol a chamar alguém,
A queimar-lhe a pele branca,
Os ossos que se aguentem.
Valham-me os Céus que já não te posso mais.
Afiem-se as facas prontas para talhar o ódio!
Engulam a honestidade e olhem-me com escárnio!
Usem-no!!! De que têm medo agora?
Cobardes! COBARDES!
Sim! É para vocês que grito!
Vocês que nasceram com os olhos cosidos porque não olham.
TRAIÇÃO!!!!!!!!
Conhecem-lhe o uso…não a forma.
Eu conto-vos meus imbecis.
A forma é a paixão!!
É simples e informal…
Não se perde nem se contorna. É directa.
Afiada como a lâmina que me corta as arestas.
Não se atrevam a tocar-lhe imbecis!
Bestas…usadas e facturadas,
Prontas para qualquer fim…
Enojam-me a língua suja com que nasci.
Bebam…bebam…bebam,
Pois o líquido é infinito.
E tu….minha brisa…fresca…
Nasceu-te rosto…nasceu-te corpo…ganhaste forma.
Logo agora que tenho o peito cheio de mágoa,
E não te posso respirar.



(Imagem de José Marafona www.josemarafona.com)

publicado por Rute às 00:32
link do post | Your Thoughts | ver comentários (34) | favorito

.Me, Myself & I


. ver perfil

. seguir perfil

. 1 seguidor

.Pesquisar neste blog

 

.Maio 2009

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.Thoughts

. Fim da linha

. Fantoches

. Tempo

. Cartas

. Despida

. Espelhos

. Encantamento

. A caminho

. Monstros

. Nós

. Durante a madrugada

. Ao outro dia

. Rever

. Acordar de Novo

. Madeira e Carmim

. Perturbações

. Memórias Recentes

. Sede

. Recordações num pedaço de...

. De novo, cansa

. Sentimentos, confusão e l...

. Frenesim

. Espasmos

. Momentos de Amarras

. Brisa

. Palavras

. Nasci de novo

. Uma vasta e densa forma d...

. Strings

. Uma e Só

. Esgrima

. The taste of "Something i...

. Purpúra

. Corpo

. Sarilhos

. Quando...

. Quando se começa a perder...

. Quando se começa a perder

. Extase

. Aflição

. Estagnação

.Thought Moments

. Maio 2009

. Dezembro 2008

. Abril 2006

. Fevereiro 2006

. Novembro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

SAPO Blogs

.subscrever feeds