Quinta-feira, 22 de Setembro de 2005

Encantamento

Renoux.JPG


Andarilhos saltitantes que postulam nas veias e teimam em atrasar a corrente sanguínea das memórias doces, fazem das horas em que se não se anuncia a presença, um autêntico martírio na forma de sufoco. Estico os dedos dos pés e as pernas, numa tentativa alcoólica de me prolongar para além de tudo isto e viajar mais perto, mais rápido.


Porque as horas se anunciam.


Porque já se faz sentir a ausência.


Pecados de chocolate pela noite dentro que comete com ternura e me diz.Enjoam-se os exageros e risinhos adolescentes impossíveis de conter dançam esta música.


Porque têm razão quando dizem que a paixão nos faz sentir de novo com dezasseis ou dezassete anos…menos talvez. É a descoberta, a novidade, uma exaltação que não pára e deambula ora mais rápida ora mais lenta. De mãos dadas com o sorriso que se desvanece quando termina este tango.


Mas não deixa de ser tão bom dançar, pois não? Mesmo que seja uma música curta, concede-me esse prazer.


Invade-me a intimidade com loucura sem o saber. Arrepia-me o comodismo e tenho de erguer o corpo para pintar a imaginação com os meus próprios pincéis.


Ai se soubesse bem a feliz comunhão com que me deito comigo própria a par com a sua ternura em imagens pitorescas e infantis.


Mas tenho sempre os olhos tristes. As unhas pintadas. A maquilhagem que transmite mais ou menos o que sinto.


Estou nua…completamente nua numa exposição sentimental que não consigo escrever…desdenho das palavras que parecem nunca sair certas, e se não estivesse ao serviço da arte nesta galeria, talvez me irritasse ou me deixasse invadir por uma agonia tremenda. Mas não. Vou fazer o que me compete e simplesmente posar para este público sensato, que são paredes e rabiscos.


Imperiosamente teatral, pego no volante das histórias e concedo-me o prazer de fingir e de brincar. A ilusão plena de tudo o que invento parecer realidade, mesmo o que é realidade, ou o que é ilusão. É bom. É uma confusa distinção, chegando mesmo a fundir-se tudo numa lama peganhenta ou numa guloseima deliciosa…depende. Mas entretanto, perdi-me completamente nestas ilusões criadas de mãos dadas contigo que também são um bocadinho reais…


Apercebendo-me do meu défice de carinho, vou-me enrolar no meu ventre e procurar conforto nos lençóis.


 


(Imagem de Renoux)


publicado por Rute às 02:28
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