Quarta-feira, 2 de Novembro de 2005

Espelhos

PedroPalma.JPG





Abraço a solidão com quanta força tenho, pois é a minha única companhia. Tenra, somente ela não me foge nunca. Não me engana com histórias loucas de amizades fingidas e forças impingidas. Não me afia os nervos para passados momentos, inventar acasos e parecer que está tudo bem. Senta-se aqui ao meu lado, enquanto do outro me espera um mar de gente endiabrada e com quantidades consideráveis de álcool no sangue.

Se ao menos eu soubesse se me apetece ir, e estar sozinha rodeada de gente, ou sozinha sem ninguém…

Falta-me força nos braços para os erguer e maquilhar os olhos, os lábios com a precisão milimétrica com que o adoro fazer…também nem sei se me apetece sentir-me bonita…
Talvez no final da noite, quando já não valer a pena nada disso porque também a noite acaba, me arrependa de não ter ido…

Ainda tenho os músculos contraídos, a pele quente, o cérebro a latejar…a espinha está em crista, a língua pontiaguda pronta a disparar qualquer veneno a quem me cuspa as palavras erradas…
Bem tento soprar ar quente para as mãos em conchinha…mas estou de gelo…por todo o lado estou de gelo…ai se eu pudesse cantar a mágoa que sinto…se eu pudesse chorar…
Se eu pudesse chorar…se eu pudesse contar tudo numa história bonita, contava. Mas só a solidão me conhece os sussurros e me sabe as lágrimas aquando caem, escondidas em imagens e grafismos sentimentais. E ela não fala.
Bebi sonolência em qualquer copo cheio de água poluída…estou intoxicada em segredos e palavras escondidas nas entrelinhas. Quem as souber, há-de lê-las…é assim que funciona este processamento maquinal embebido em sensações transpiradas, vindas de água poluída.
Balanço-me muito rápido na cadeira que ficará desengonçada…dantes era de madeira e gemia, agora é moderna e chia.
Já tenho o sabor rotineiro de dias difíceis na boca, e os cantos dos lábios ensanguentados. Magoa a pele que fica fria demais e não me deixa mover, vou ter de me ir aquecer.
Enquanto me levanto, sinto que dentro de mim, rasteja um animal adoentado, que se esconde num canteiro mal arranjando para morrer…mas cá fora, caminha altiva uma felina, de passos seguros, certeiros, como se soubesse o caminho e o destino, não o acreditando, apenas desafiando tudo a cada movimento. Olhar tão característico de fulminante que é.

Tanto embaraça como cativa.
Tanto apaixona como cria, sem se aperceber, ódios e ciúmes a que não dá importância.

Vai desenhando letras magníficas com a imaginação ao som de obras que são espelhos: “I am the girl anachronism….”.
E repito isto incessantemente.

Já sentada em frente à lareira, olho a madeira a chorar enquanto arde…estou perto demais porque sinto a pele de novo, mas desta vez, parece que borbulha de tão quente…
Tenho vontade de ficar a noite toda neste aconchego tão familiar…eu, o estalar da lareira, e o relógio que ritmicamente não me deixa esquecer que o tempo continua a passar.






(Imagem de Pedro Palma)


publicado por Rute às 01:01
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19 comentários:
De ferrus a 8 de Novembro de 2005 às 02:25
Não! Já não me espanto com a tua invulgar capacidade de escrita! Não me espanto com as pinturas que executas com palavras! Não me espanto com a tua ligeireza de pena e a forma como encantas quem lê...mesmo que seja um texto de Mulher só! Deixo-te beijos de admiração...e muitos!...


De Milocas a 5 de Novembro de 2005 às 22:05
Já tinha saudades de te ler :) Um beijinho *


De Carlos a 5 de Novembro de 2005 às 10:04
"Às vezes,quero escrever o que penso, o que quero

mas as coisas não são tão fáceis assim

As pessoas elogiam o que não conhecem

e admiram o que nunca viram

Seria irreal escrever sobre o amor

O mundo não tem mais amor,

mas as pessoas iriam continuar contemplando os versos

não conhecem o amor

Talvez tenham sentido algum tipo de dor

o que confundiram com amor

mas dor é dor

e amor é amor

Tristeza faz parte da vida,

mas há pessoas que vivem tristes,

ou melhor, não vivem...

Em cada segredo, há trevas,

que estão sempre por detrás dos amores

Os ódios que se disfarçam de fadas

e as bruxas que enfeitiçam os mortais

Temores que não acabam mais

e tiram da vida um pouco de vida

Deixam as pessoas vazias,

querendo um pouco de amor...

Então, só restam a elas contemplar

outros versos que falam de amor

Elas não conhecem o amor

e precisam se refugiar



De Therence a 4 de Novembro de 2005 às 19:48
Adoro as mulheres escritoras, acho que só as mulheres têm sensibilidade para descrever sentimentos e sensações de forma que podemos sentir o que se lê. Ler o que você escreve tráz um complexo de sensações incrível!


De Mnica a 4 de Novembro de 2005 às 18:01
Solidão nunca!!!!

estamos sempre acompanhados por nós próprios e nós somos uma excelente companhia.

Muitas vezes mais vale sós do que acompanhado mas num mundo de ninguéns!!!

Gostei do texto.

:)


De micas a 3 de Novembro de 2005 às 22:22
Gostei deste espaço de tanta beleza e sentimento. Voltarei de certeza.


De (Eca) a 3 de Novembro de 2005 às 01:18
Fica-te bem tão simples gestos, de ficar na inquietante prosa, que fala dos nossos medos, tal como a solidão. "ninguém nasce vazio, nós tornamos nossa existência com vazios" Viva o antagonismo do positivismo, sejamos alegres com o que de simples temos, sonhemos com o que ainda não alcançamos. Bjos, tudo de bom para ti


De Susana a 2 de Novembro de 2005 às 22:47
Cada um tem a sua história, o seu choro a crepitar no lume, mas perante as tuas palavras, tão sentidas, tão entrelaçadas, só posso dizer que já senti assim, que sinto assim, que a solidão também mora deste lado e sim, existem dias, noites, em que só quero mesmo deixar as lágrimas correr e não ouvir mais o relógio a marcar o tempo que passa.. Força, muita força, limpa as lágrimas, veste um sorriso, olha para a tua beleza, para o que tens de positivo e a vida escorrerá de forma mais fácil.. Beijinho, grande..


De shakermaker.blogs.sapo.pt a 2 de Novembro de 2005 às 20:11
Ora viva Cara Vampiria... Como já tive a oportunidade de lhe dizer, os seus textos estampam-me um sorriso no rosto de tão belos e singulares que me parecem. Gostei de poder imaginar a imagem reflectida desta mulher com as palavras que foi deixando ficar para trás, assim como quem deixa um trilho para que as possamos seguir num rasto até junto da lareira... Onde tudo acaba para nós mas é apenas mais uma continuação para ela. Brilhante, não chega para descrever este texto mas é tão somente a palavra mais luminosa que me ocorre para lhe dizer o quanto gostei destes espelhos. Um abraço... SHAKERMAKER


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