Domingo, 12 de Dezembro de 2004

Uma e Só

01600.jpg




Foi desesperada que me apanhaste a correr por uma baldia praça no centro. Socorreste o meu braço e gritei para me deixares. Nunca entendeste que o meu deixa-me era um aperta-me e o deixar-te apertar-me era na maior parte das vezes, um frio deixar-te tomar-me. Fujo aos poucos, sem saber que caminho tomar. Dói-me a garganta de estar calada há tanto tempo.
Finalmente encontro uma esquina aprazível. Sento-me e recordo como sou. Tanto me amo como rainha das ninfas, como me detesto…o bizarro será dizer que tiro tanto prazer do prazer como da dor. Não me quero lembrar mais uma vez do que foi conhecer-te, é passado, e o quanto me magoa voltar à inocência, à ingenuidade de que fui coroada. Quando a realidade me sobressaltou, foi como se finalmente tivesse caído na Terra, não de pára-quedas, mas atirada bruscamente por um braço forte e musculado, sem sangue de compaixão ou o mínimo de carinho. As coisas que pensamos. Esta esquina incomoda-me porque me faz pensar. Vou procurar outro sítio.
Telefonara-me durante a madrugada. Faz-me reflectir o porquê de sempre me ter causado um calafrio na espinha, e desejar ser acarinhada pelas suas palavras de sedutor, que nunca soube se eram verdade ou mentira, mas que provavelmente são. Cavalheiro e sedutor. Assim te tomas e o és tão bem.
Ainda ontem me deliciava com a doce forma de outro se investir em mim e poder saborear o trago do segredo e da traição. Como gosto de carne. Insaciável ninfa, é o que sou.
Não me poderei simplesmente dar, porque já me dei. Deitei-me contigo. Sobre ti. Sobre mim. Esqueci tudo, inclusive a mim, e saí-me mal. Não o quero de novo.
Espero pelo passar de uma hora e tal. Estou curiosa para ver se o fogo vem e me queres tomar, e me queres fazer rainha da loucura. Quase nunca sóbria, assim sou. Bêbeda de sonhos, de injúrias, de pecado, de vinho, de fumo, de droga, de pessoas, de carne. Voltei a carne. Ah…nunca saí dela! Tudo me desperta o órgão. Isto faz-me sentir bem, talvez porque o poder fica reservado em mim. Especulo sobre o que será encontrar-te depois de me teres pedido para ficar.
Parto com o medo que não posso suportar. Ser ignorada. Será que vou ver O Ambíguo? Aquele que me olha e me usa com o seu olhar quando lhe apetece? Que me faz sentir sedutora e mísera de um instante para o outro?
Correr…fugir do mundo e encontrar-me. A confusão que sou faz parte de todos. Não sei se é assim que quero que seja. Não sei se é assim que deve ou não ser. Será que alguém me quer tomar nos braços e fazer de mim A pecadora?
Mil e um pecados dilaceram-me a boca e o coração palpita. Chupar o que há em ti. Sanguessuga que sou. Mas não colada. É ao longe que mais me desejas perto.
Sorris ao delito. Cheira-te a sexo. Envias-me um beijo e esperas por mim ao outro dia. Não apareço, mas faço-te sonhar. Quero fazer-te desejar-me daqui a momentos. Que as leituras te sobressaltem, que as imagens te devorem, que os sons te mastiguem e que tudo seja eu.
De novo na praça. Os olhos são de uma estrela que morreu em tempos de glamour. Foi tanto que se afundou. Os trapos pretos esvoaçam e fazem-me sensual sem dar por isso. Não sei quem esperará por mim ao fundo da avenida. Tu, tu, tu, tu, tu? Nem me atrevo a pronunciar-lhes o nome. Manter-me-ei secreta na minha feminilidade, no meu desejo de carne, de usar, de ser usada, de me sentir meretriz, de te ter no meio das minhas pernas, fértil, duro, viril, macho, suportando o meu peso que é pouco e sempre te transtorna. Sentir o teu desejo quando me vês. E quereres de novo suportar-me em teus braços. Enleada em mim, enroscada no teu tronco suave e molhado, de mim e de suor. O prazer que te dou é um vício que queres manter. Escondido. Nunca nada te saberá melhor. Afinal, sou Rainha ou não?



(Imagem de José Marafona)

publicado por Rute às 03:21
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28 comentários:
De vitor a 7 de Janeiro de 2005 às 20:44
Sei o que dizes, sinto cada pensamento que te devora em sensações quase delirantes. Para muitos, sintoma inequivoco de loucura. Para nós, certeza da existência de consciências dentro desta consciência que teimamos manter solitária e única dentro de cada um de nós. Sei que um dia, aquele encontro que esperas te buscará. Sabemos todos....ah!! Como gostamos de fingir que não chegará. Porém, esse momento, não será como o desejas. Será antes, mais um renascer para outra consciência e não própriamente uma fuga de ti própria...tu estarás sempre lá...nós é que não saberemos onde te encontrar.....sei que percebeste...


De vitor a 7 de Janeiro de 2005 às 20:43
Sei o que dizes, sinto cada pensamento que te devora em sensações quase delirantes. Para muitos, sintoma inequivoco de loucura. Para nós, certeza da existência de consciências dentro desta consciência que teimamos manter solitária e única dentro de cada um de nós. Sei que um dia, aquele encontro que esperas te buscará. Sabemos todos....ah!! Como gostamos de fingir que não chegará. Porém, esse momento, não será como o desejas. Será antes, mais um renascer para outra consciência e não própriamente uma fuga de ti própria...tu estarás sempre lá...nós é que não saberemos onde te encontrar.....sei que percebeste...


De vitor a 7 de Janeiro de 2005 às 20:43
Sei o que dizes, sinto cada pensamento que te devora em sensações quase delirantes. Para muitos, sintoma inequivoco de loucura. Para nós, certeza da existência de consciências dentro desta consciência que teimamos manter solitária e única dentro de cada um de nós. Sei que um dia, aquele encontro que esperas te buscará. Sabemos todos....ah!! Como gostamos de fingir que não chegará. Porém, esse momento, não será como o desejas. Será antes, mais um renascer para outra consciência e não própriamente uma fuga de ti própria...tu estarás sempre lá...nós é que não saberemos onde te encontrar.....sei que percebeste...


De vitor a 7 de Janeiro de 2005 às 20:41
Sei o que dizes, sinto cada pensamento que te devora em sensações quase delirantes. Para muitos, sintoma inequivoco de loucura. Para nós, certeza da existência de consciências dentro desta consciência que teimamos manter solitária e única dentro de cada um de nós. Sei que um dia, aquele encontro que esperas te buscará. Sabemos todos....ah!! Como gostamos de fingir que não chegará. Porém, esse momento, não será como o desejas. Será antes, mais um renascer para outra consciência e não própriamente uma fuga de ti própria...tu estarás sempre lá...nós é que não saberemos onde te encontrar.....sei que percebeste...


De vitor a 7 de Janeiro de 2005 às 20:40
Sei o que dizes, sinto cada pensamento que te devora em sensações quase delirantes. Para muitos, sintoma inequivoco de loucura. Para nós, certeza da existência de consciências dentro desta consciência que teimamos manter solitária e única dentro de cada um de nós. Sei que um dia, aquele encontro que esperas te buscará. Sabemos todos....ah!! Como gostamos de fingir que não chegará. Porém, esse momento, não será como o desejas. Será antes, mais um renascer para outra consciência e não própriamente uma fuga de ti própria...tu estarás sempre lá...nós é que não saberemos onde te encontrar.....sei que percebeste...


De vitor a 7 de Janeiro de 2005 às 20:40
Sei o que dizes, sinto cada pensamento que te devora em sensações quase delirantes. Para muitos, sintoma inequivoco de loucura. Para nós, certeza da existência de consciências dentro desta consciência que teimamos manter solitária e única dentro de cada um de nós. Sei que um dia, aquele encontro que esperas te buscará. Sabemos todos....ah!! Como gostamos de fingir que não chegará. Porém, esse momento, não será como o desejas. Será antes, mais um renascer para outra consciência e não própriamente uma fuga de ti própria...tu estarás sempre lá...nós é que não saberemos onde te encontrar.....sei que percebeste...


De angeliser a 30 de Dezembro de 2004 às 01:05
Saudações
Gostei muito do seu blog
Está mágnifico
Adoro cada momento que aqui li.
Continue com estes belos momentos
Felicidades


De ferrus a 29 de Dezembro de 2004 às 02:33
Antes de mais devo agradecer atua visita e as palavras que deixaste no meu cantinho de momentos.
Sinto-me gentio perante ti, rainha das palavras. Eu amonto-o as palavras umas ao lado das outras, tu pintas as folhas em branco com bailados linguísticos e ortográficos....Gostei imenso...Sério!
Virei todos os dias, para saborear os teus textos!
Bjitos!


De SpwanR a 28 de Dezembro de 2004 às 00:23
Magoas-me quando te leio, não pq.desgoste do que escreves mas pq.contrarias o que penso. O amor, a paixão, o enamoramento são estados de alma com os quais temos de estar bem até só pelo simples facto de os estarmos a sentir...não os quero trocar só pelo prazer de um momento...irreal...


De Azorboy a 24 de Dezembro de 2004 às 16:32
o http://livretransito.blogs.sapo.pt/ deseja-vos um feliz natal e um óptimo ano novo


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